A Ouvidoria da Mulher da OABRJ finalizou a primeira etapa da pesquisa “Ser advogada não me salva” destinada a compreender a incidência e os impactos da violência sofrida por advogadas no Estado do Rio de Janeiro. Na próxima fase, a Seccional pretende prestar auxílio direto e orientar de acordo com as subjetividades de cada caso, já que, ao fim do levantamento, 49,6% das colegas que preencheram o questionário manifestaram o desejo de conversar diretamente com a instituição sobre suas experiências. “Os dados da pesquisa serão utilizados para orientar a formulação de novas estratégias institucionais de enfrentamento à violência contra advogadas. Queremos garantir que nenhuma profissional do Direito sofra em silêncio, e que a OABRJ seja cada vez mais um espaço seguro de acolhimento e resposta”, explicou a ouvidora da Mulher da OABRJ, Andréa Tinoco. Balanço inicial do levantamento Os dados preliminares revelam um cenário preocupante: 78,6% das participantes afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência, sendo a psicológica a mais recorrente, com 85,3% das ocorrências. Entre as respondentes, 97,1% se declararam mulheres cisgênero, sendo as faixas etárias mais atingidas as de 35 a 45 anos (36,5%) e 25 a 35 anos (23,5%). No recorte racial, 61,6% se identificam como brancas, 25,9% como pardas e 11,3% como pretas. Quase metade das participantes (49,7%) reside na capital fluminense. Já os principais agressores apontados foram parceiros ou ex-parceiros (37,9%) e colegas de profissão (17,2%). Ainda assim, 74,4% das vítimas não buscaram apoio junto à OABRJ e 67,6% não denunciaram os agressores a nenhuma autoridade. Para 36,6% das respondentes, a violência sofrida teve impacto direto em sua trajetória profissional. Desdobramentos Como desdobramento direto do levantamento, a Ouvidoria da Mulher anunciou um conjunto de ações estruturantes voltadas à consolidação de uma política permanente de enfrentamento à violência, entre elas: ✅ a criação do Observatório da Violência contra Advogadas, que fará o monitoramento contínuo dos casos e a produção de relatórios anuais com indicadores regionais e temáticos; ✅ a elaboração de um Plano Estadual de Enfrentamento à Violência contra Advogadas, com metas e prazos definidos, construído de forma participativa com as subseções; ✅ a instituição de um grupo de trabalho interdisciplinar, com representantes da Diretoria de Mulheres, da Comissão da Mulher Advogada, da Caixa de Assistência da Advocacia (Caarj) e da Comissão de Combate e Enfrentamento à Violência contra a Mulher Advogada; ✅ e a realização de audiências públicas regionais, a fim de ouvir as advogadas em diferentes contextos e aprofundar o diagnóstico das violências. “Agora, por meio das informações que recebemos, vamos conseguir cobrar, de forma mais acertiva, providências e soluções efetivas dos órgãos competentes. Infelizmente, o nosso estado ainda ocupa o segundo lugar no país em casos de violência contra a mulher. É urgente que o poder público priorize o enfrentamento deste sério problema social e nós, como ponte com a população, vamos lutar por isso”, destacou a presidente da OABRJ, Ana Tereza Basilio. Segundo Andréa Tinoco, as iniciativas têm por objetivo converter o diagnóstico em ação concreta: “Nosso compromisso é transformar esses números em políticas que garantam um exercício profissional livre de qualquer forma de violência e discriminação. A escuta ativa das advogadas será o eixo central dessa construção”.