Faleceu nesta terça-feira, dia 4, no Instituto do Coração, em São Paulo, a advogada Eny Raimundo Moreira, militante dos direitos humanos, que defendeu presos políticos durante o regime militar.  A advogada - que entre 1964 e 1979 fotocopiou os processos do Superior Tribunal Militar, aproveitando que a lei permitia que os advogados estudassem os processos durante 24 horas - criou o Comitê Brasileiro pela Anistia e foi uma figura central do projeto Brasil Nunca Mais, a mais ampla pesquisa realizada pela sociedade civil sobre a tortura política no país, que, em 1985, expôs a gravidade das violações aos direitos humanos promovidas pela repressão política durante a ditadura militar.

Presidente da Seccional, Luciano Bandeira declarou luto de três dias em função da morte da colega: 

"Sempre combativa, ela jamais calou-se diante de qualquer tipo de arbítrio. Decretei luto oficial de três dias na OABRJ, mas a morte de Eny Moreira não atinge apenas a advocacia. Sua partida toca o coração de todos aqueles que defendem os ideais de justiça e liberdade. De todos os que lutam por uma sociedade mais justa e igualitária. Toda nossa solidariedade aos amigos e familiares", disse Luciano.

Em abril de 2019, participou pela última vez de um evento presencial na OABRJ, quando foi rememorada a resistência da classe ao regime militar.

Em 2012, durante um emocionante depoimento à Comissão da Verdade, Eny contou como foi a primeira pessoa a ver o corpo da militante Aurora Maria Nascimento Furtado, morta logo após ser presa, em novembro de 1972, que se encontrava mutilado e deformado pelas torturas sofridas, contrariando a versão apresentada pelos órgãos de segurança, de que Aurora teria morrido após ser baleada durante uma tentativa de fuga

O pai do advogado e diretor de Comunicação da OABRJ, Marcus Vinicius Cordeiro, Henrique João Cordeiro Filho, também foi um dos militantes defendidos por Eny durante o período da ditadura militar. Segundo Marcus Vinicius, a coragem e a criatividade da advogada foram essenciais para garantir a sobrevivência de seu pai.

"Dra. Eny foi uma figura muito valiosa porque teve uma trajetória de atuação que se sintonizou com a imagem corajosa e destemida que temos da advocacia", conta o diretor.

"Ela fez parte de um grupo de advogados de imenso talento, coragem e criatividade, que teve o desafio de defender presos políticos no cenário do AI-5, sem habeas corpus e em condições absolutamente adversas. Meu pai foi um dos beneficiados pela bravura de advogados como Eny e Modesto da Silveira, que impediram que ele tivesse um fim trágico como tantos outros que pereceram nos porões da ditadura".