Voz eloquente, postura firme e luta constante na defesa da liberdade e dos direitos humanos banhadas à coragem, generosidade e poesia. Encarcerado em 1970, apenas por defender presos políticos, George Tavares - morto em junho deste ano - teve sua trajetória exposta em sessão solene conjunta da OAB/RJ com o Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), na noite desta segunda-feira, dia 28. Num contexto em que a união se faz indispensável para as garantias da advocacia criminal no Brasil, as duas entidades selaram a homenagem com a criação da Comissão de Estudos de Direito Penal da Ordem, presidida pelo secretário do IAB, Carlos Eduardo Machado. A Escola Superior da Advocacia inaugurou uma placa com o nome de Tavares, dando nome a uma de suas salas. Para Machado, unidos, OAB e IAB podem fazer mais. "Nossas lutas são comuns. Estamos em um momento de projetos que não dignificam o estado da ciência penal do país. De 90 mil presos em 1990 passamos a ter 540 mil nos dias atuais, com um estudo de projeto penal que pretende encarcerar ainda mais. Ao mesmo passo, somos agredidos pela perseguição constante aos advogados criminalistas", ponderou. Jovens colegas viram seus telefones serem grampeados e fazem parte de inquéritos cujas páginas são idênticas as que recebi no habeas data de meu pai Felipe Santa Cruz presidente da OAB/RJ As recentes acusações feitas a advogados, "tratados como coautores dos seus clientes, na maioria das vezes, pelo simples fato de cumprirem com suas obrigações", foi duramente criticada pelo presidente da comissão. "Nesse contexto de batalha, perdemos um de nossos maiores combatentes aos arbítrios enfrentados na esfera criminal. George Tavares não se abaixou aos que tentaram aniquilar o estado democrático de direito na época da ditadura. É esse o exemplo que temos que reacender neste momento de crise. Coragem, mesmo que nos imponham à humilhação. Covardia não cabe aos advogados", enfatizou Machado. De acordo com o presidente da Seccional, Felipe Santa Cruz, não haveria melhor momento para prestar a homenagem a George Tavares, "dono de uma advocacia potente, independente, humana e sonhadora", definiu. "Os últimos dias têm sido muito difíceis para a classe. Jovens colegas viram seus telefones serem grampeados e fazem parte de inquéritos cujas páginas são idênticas as que recebi no habeas data de meu pai [Fernando Santa Cruz, preso e desaparecido pela ditadura militar], acusados, simplesmente, por proferirem palavras de oposição ao governo", destacou Felipe. Para o presidente da Ordem, quando um homem tem uma trajetória grandiosa, como foi a de George, mais do que homenageá-lo com palavras e salas, é preciso reviver seus princípios com coerência. "Nesse sentido convoco a advocacia a fazer parte da nossa nova comissão e a comparecer ao ato do dia 14 de agosto, na sessão solene do pleno, contra a infâmia, os grampos e os processos secretos. Não podemos aceitar, porque esse é o ovo da serpente e contra ele nosso George Tavares teria feito frontal e vigorosa oposição", defendeu. Presidente do IAB e amigo de Tavares há mais de 50 anos, Técio Lins e Silva também destacou a importância da união das entidades de classe para uma reação urgente aos grampos, que como frisou, tiveram a autorização judicial. "O presidente dessa comissão terá trabalho", observou Lins e Silva. Emocionado, o presidente do IAB contou histórias da amizade com George Tavares, iniciada em meados da década de 1960. "Ele é exemplo não somente por ser tecnicamente preparado, mas pela sua total generosidade e entrega a profissão", disse. Representando a família do homenageado, a advogada Kátia Tavares, filha de George, encerrou os discursos afirmando: "Morto, efetivamente, meu pai jamais o será. Enquanto houver uma injustiça a se reparar ou a subversão do direito de defesa, a voz firme e eloquente dele estará viva como um símbolo na lembrança de seus pares e nos tribunais do país. Vejo este como um tributo a todos aos advogados. Em especial à advocacia criminal". Também fizeram parte da mesa o jornalista Hélio Fernandes, ex-cliente de Tavares, o ex-presidente do Conselho Federal Bernardo Cabral, o tesoureiro da OAB/RJ, Luciano Bandeira, a 1ª subdefensora pública geral do estado, Maria Luiza de Luna Saraiva, e o advogado criminalista Antônio Carlos Barandier. O ex-conselheiro federal Nélio Machado também discursou na solenidade. A sala da ESA com o nome de George Tavares fica no segundo andar da sede da OAB/RJ. Quem foi George Tavares O advogado criminalista George Tavares destacou-se ao defender presos políticos na época da ditadura militar. No exercício da advocacia chegou a ser preso pelos militares, na noite de 1º de novembro de 1970, sem que respondesse a processo ou tivesse recebido qualquer acusação formal. Carioca, estreou na profissão ainda no terceiro ano da faculdade de Direito, em 20 de junho de 1956, no II Tribunal do Júri. Foi professor de Direito Penal das faculdades de Direito da Uerj e da Gama Filho, presidente do Conselho Penitenciário do Rio de Janeiro e conselheiro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Ocupou o cargo de procurador-geral da Justiça Militar por oito meses. Integrou o Conselho Federal da OAB de 2 de abril de 1973 a 3 de março de 1989, e era membro efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros desde 1967.