27/10/2025 - 10:10 | última atualização em 27/10/2025 - 17:43

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“Ser advogada não me salva”: Ouvidoria da Mulher avança para fase de orientação das advogadas vítimas de violência

De acordo com as especificidades apontadas no levantamento inédito, OABRJ vai iniciar projeto de escuta individualizada das participantes

Ana Júlia Brandão



A Ouvidoria da Mulher da OABRJ finalizou a primeira etapa da pesquisa “Ser advogada não me salva” destinada a compreender a incidência e os impactos da violência sofrida por advogadas no Estado do Rio de Janeiro. Na próxima fase, a Seccional pretende prestar auxílio direto e orientar de acordo com as subjetividades de cada caso, já que, ao fim do levantamento, 49,6% das colegas que preencheram o questionário manifestaram o desejo de conversar diretamente com a instituição sobre suas experiências. 


“Os dados da pesquisa serão utilizados para orientar a formulação de novas estratégias institucionais de enfrentamento à violência contra advogadas. Queremos garantir que nenhuma profissional do Direito sofra em silêncio, e que a OABRJ seja cada vez mais um espaço seguro de acolhimento e resposta”, explicou a ouvidora da Mulher da OABRJ, Andréa Tinoco.


Balanço inicial do levantamento


Os dados preliminares revelam um cenário preocupante: 78,6% das participantes afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência, sendo a psicológica a mais recorrente, com 85,3% das ocorrências.

Entre as respondentes, 97,1% se declararam mulheres cisgênero, sendo as faixas etárias mais atingidas as de 35 a 45 anos (36,5%) e 25 a 35 anos (23,5%). No recorte racial, 61,6% se identificam como brancas, 25,9% como pardas e 11,3% como pretas. Quase metade das participantes (49,7%) reside na capital fluminense.

Já os principais agressores apontados foram parceiros ou ex-parceiros (37,9%) e colegas de profissão (17,2%). Ainda assim, 74,4% das vítimas não buscaram apoio junto à OABRJ e 67,6% não denunciaram os agressores a nenhuma autoridade. Para 36,6% das respondentes, a violência sofrida teve impacto direto em sua trajetória profissional.


Desdobramentos


Como desdobramento direto do levantamento, a Ouvidoria da Mulher anunciou um conjunto de ações estruturantes voltadas à consolidação de uma política permanente de enfrentamento à violência, entre elas:

✅ a criação do Observatório da Violência contra Advogadas, que fará o monitoramento contínuo dos casos e a produção de relatórios anuais com indicadores regionais e temáticos;

✅ a elaboração de um Plano Estadual de Enfrentamento à Violência contra Advogadas, com metas e prazos definidos, construído de forma participativa com as subseções;

✅ a instituição de um grupo de trabalho interdisciplinar, com representantes da Diretoria de Mulheres, da Comissão da Mulher Advogada, da Caixa de Assistência da Advocacia (Caarj) e da Comissão de Combate e Enfrentamento à Violência contra a Mulher Advogada;

✅ e a realização de audiências públicas regionais, a fim de ouvir as advogadas em diferentes contextos e aprofundar o diagnóstico das violências.



“Agora, por meio das informações que recebemos, vamos conseguir cobrar, de forma mais acertiva, providências e soluções efetivas dos órgãos competentes. Infelizmente, o nosso estado ainda ocupa o segundo lugar no país em casos de violência contra a mulher. É urgente que o poder público priorize o enfrentamento deste sério problema social e nós, como ponte com a população, vamos lutar por isso”, destacou a presidente da OABRJ, Ana Tereza Basilio.


Segundo Andréa Tinoco, as iniciativas têm por objetivo converter o diagnóstico em ação concreta:


“Nosso compromisso é transformar esses números em políticas que garantam um exercício profissional livre de qualquer forma de violência e discriminação. A escuta ativa das advogadas será o eixo central dessa construção”.

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