“Vamos supor que vocês encontraram uma pessoa que acordou hoje depois de passar os últimos quatro anos dormindo. Como vocês explicariam todos os eventos excepcionais que aconteceram na política brasileira durante esse tempo?”. Com essa provocação, o cientista político e professor da UFRJ Jairo Nicolau iniciou sua palestra na manhã deste sábado, dia 3, no Colégio de Presidentes de Subseção, que está sendo realizado em Cantagalo. Veja a cobertura completa. Nicolau lembrou que, há quatro anos, a ex-presidente Dilma Rousseff estava no meio de seu primeiro mandato. “Como explicar que depois de reeleita ela enfrentaria um processo de impeachment e que as ruas estariam ocupadas por brasileiros pedindo sua saída? Como explicar que, durante pronunciamentos da então presidente na televisão, as pessoas iriam para as janelas de suas casas bater panelas e demonstrar insatisfação com o governo?”, questionou. Ele classificou o período que o país enfrenta como uma sucessão de pequenos terremotos. “Nunca sabemos quando virá o próximo. Quando um ex-governador, um deputado ou um empresário será preso. Vivemos um período de completa instabilidade política e uma gravíssima crise econômica. A política que era feita até então, e que parecia ter uma certa estabilidade, ruiu e a economia não dá sinais de retomada”. O ex-deputado Eduardo Cunha foi outro exemplo dado por Nicolau de uma pessoa que passou por mudanças significativas nesses últimos anos. Da presidência da Câmara dos Deputados, onde mobilizou o processo de impeachment da ex-presidente Dilma, para a cassação de seu mandato e prisão. “Cunha foi o presidente da Câmara mais hostil à presidência da República em todo o período democrático brasileiro”, pontuou Nicolau. Para ele, casos simbólicos como o de Cunha e também do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, preso desde novembro, aprofundam a crise de representação política. Segundo Nicolau as eleições municipais deste ano demonstraram que a relação dos cidadãos com a política chegou ao “fundo do poço”. Para ele, a insatisfação dos brasileiros com os representantes ficou explicita na taxa alta de votos brancos e nulos nas grandes cidades. Outro motivo que levou à descrença da população com a política brasileira foi a crise do Partido dos Trabalhadores (PT). “Não há nenhuma força política atualmente que reconecte o cidadão com a política, como fez o PT nos anos 90”. O fim do financiamento privado de campanhas políticas foi considerado uma vitória. “Não há como voltarmos para a situação anterior”, disse Nicolau. Ele sugeriu que a Comissão Especial de Reforma Política da Câmara dos Deputados poderia aprimorar a questão do financiamento de campanhas e destacou dois pontos principais que poderiam ser aperfeiçoados. Nicolau defendeu que é preciso indicar um teto para o valor que o próprio candidato pode investir em sua campanha. “Do jeito que está acaba incentivando grandes empresários a entrarem para a política”, destacou. Outra medida seria limitar valor que cada pessoa física poderia doar, além de ser necessário estabelecer formas de fiscalizar se essas regras estão sendo cumpridas. A descrença com a política acabou direcionando a população para o aumento da confiança no Judiciário. “As pessoas atualmente veem na Justiça uma espécie de salvadora, graças a essa crise de representação e à visão totalmente negativa da política. E me preocupa essa total rejeição à política, porque ela não se traduz em um Congresso Nacional de mais qualidade, por mais que seja por isso que a gente torça. Essa insatisfação vai se traduzir em um aumento do número de votos em branco e nulos. Com essa formação atual do Congresso, completamente fragmentado, é preciso que eles foquem em realizar coisas simples, como aprimorar o financiamento de campanhas e procurar diminuir essa fragmentação”.