O Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio vai decidir na sessão desta segunda-feira, dia 26, se abre processo administrativo disciplinar contra um juiz estadual. Embora o nome seja mantido em sigilo, integrantes do Órgão, formado pelos 25 mais antigos desembargadores fluminenses, receberam recentemente, do Conselho da Magistratura, peças de investigação sobre a conduta do juiz Rafael Fonseca, titular da Vara Única de Mangaratiba, que é acusado de ser recordista em autorizações de escutas telefônicas e ter ligações com milicianos de Itaguaí, cidade onde atuou como juiz criminal. Rafael Fonseca foi citado domingo em reportagem do jornal O Globo sobre a baixa produtividade do Judiciário Fluminense na condenação de políticos corruptos. Ele causou surpresa ao Ministério Público pela celeridade demonstrada na absolvição do prefeito de Itaguaí, Carlos Busatto Júnior, o Charlinho, que respondia ação de improbidade administrativa por contratar ilegalmente um jornal regional. Para apressar o andamento do processo, ele chegou a enviar um oficial de Justiça ao MP depois do horário de expediente. Na reportagem de domingo, o jornal mostrou que apenas 70 dos 1.209 processos por improbidade (destinados a punir os responsáveis pelo desvio de dinheiro publico) tiveram condenações em caráter definitivo no Rio. O número baixo levou a Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a abrir uma inspeção extraordinária para levantar as causas do problema. Questões disciplinares envolvendo juízes são, geralmente, examinadas pelo Conselho da Magistratura. Porém, como a pena máxima desta instância é a censura, o Conselho costuma remeter os casos mais graves ao Órgão Especial. Os magistrados, depois de notificados, têm direito à defesa prévia antes da sessão que decide a abertura do processo. Representações encaminhadas à Corregedoria do TJ-RJ citam o nome de Rafael Fonseca em quatro situações distintas. Só em 2007, ele teria autorizado a realização de 2.147 escutas telefônicas no município (uma para cada 48 habitantes de Itaguaí). Posteriormente, o juiz autorizou a destruição das conversas gravadas. Bens apreendidos eram entregues a assessores Outra representação cita o juiz como responsável pela destinação de bens apreendidos com criminosos, como carros e armas, a pessoas de seu círculo pessoal sem que o Ministério Público tivesse sido consultado. Os demais casos envolvem suposta compra de alvarás, sendo um deles para beneficiar em 2008 uma quadrilha de milicianos presa durante a Operação Leviatã II. Posteriormente, o mesmo juiz julgou e condenou o grupo. Em mensagens pela internet e pelo celular, o juiz tomou conhecimento do assunto, mas não respondeu ao jornal o Globo. Na semana passada, ao explicar a decisão que favoreceu o prefeito de Itaguaí, Rafael disse que julgou o caso sem esperar novas provas, solicitadas pelos promotores, por considerar o caso maduro (pronto para a sentença). Enquanto o Órgão Especial examina o caso disciplinar, a Corregedoria do CNJ inicia nesta segunda uma inspeção ordinária no Tribunal fluminense. Um dos objetivos é cruzar, por amostragem, os rendimentos com as declarações de renda dos 180 desembargadores fluminenses. O trabalho, contudo, deverá ser ampliado para os juízes do primeiro grau e os cartórios extrajudiciais. De acordo com nota divulgada pelo site da Associação dos Magistrados do Rio de Janeiro (Amaerj), o presidente da entidade, Cláudio dell'Orto, esteve em Brasília na sexta-feira, para organizar o acompanhamento do trabalho. O próprio presidente da Associação dos Magistrados do Brasil, Nelson Calandra, deverá estar no Rio durante a inspeção.