Trinta pastas de documentos, dezenas de horas de gravações com entrevistas e depoimentos, fotos, comendas, diplomas. Todo esse acervo do líder político comunista Apolônio de Carvalho, que completaria 100 anos nesta quinta-feira, dia 8, foi doado sua viúva, Renée, ao Arquivo Nacional em cerimônia no final da tarde desta quarta. Herói em vários países - militou na Aliança Libertadora Nacional nos anos 30, nas fileiras das Brigadas Internacionais contra o franquismo na Guerra Civil espanhola, na resistência francesa ao nazismo e contra a ditadura militar brasileira - Apolônio preferia definir-se apenas como “um homem consequente com suas ideias”, como lembrou Renée. Companheira de ativismo político - ela o conheceu na França, em uma reunião da Resistência - Renée disse que a família sofrera com a decisão de separar-se de tantas lembranças de Apolônio, falecido em 2005, mas decidira abrir o acervo para o público, como o marido faria. Renée contou também que muitos documentos haviam sido destruídos com soda cáustica dentro de uma banheira eme casa, ante a iminência de prisão de Apolônio pelos agentes da ditadura. O que sobrou já está sendo catalogado e preparado para uma futura exposição, mas algumas cartas e uma medalha do governo da França já podem ser vistos. A cerimônia de doação reuniu, além de Renée e do filho René, antigos companheiros de militância, a viúva de Luís Carlos Prestes, Maria Prestes – que recentemente também doou o acervo do marido ao Arquivo Nacional –, o presidente da instituição, Jaime Antunes, o presidente da OAB/RJ, Wadih Damous e o secretário municipal de Habitação e membro do Diretório Nacional do PT – partido que teve Apolônio como seu primeiro filiado –, Jorge Bittar. Depois de lembrar a campanha pela Memória e pela Verdade realizada pela Seccional, Wadih anunciou a formação de um grupo, coordenado pelo vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos, Marcelo Chalréo, para reunir elementos e depoimentos que sirvam de subsídio ao trabalho da Comissão da Verdade a ser instalada no Congresso Nacional. “Vamos apurar como atuaram alguns juízes e promotores durante a ditadura”. Wadih voltou a lamentar o julgamento do Supremo Tribunal Federal que abrigou na Lei da Anistia agentes púbicos acusados de tortura, e aproveitou para cobrar a designação, pela presidência da República, dos membros da Comissão da Verdade. Também exortou a sociedade a cobrar, do governo federal, o cumprimento da decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos que condenou o Estado brasileiro a investigar o desaparecimento forçado de 70 pessoas na Guerrilha do Araguaia, responsabilizando os culpados. Enquanto Graça Lago, filha do falecido dramaturgo, ator e compositor Mário Lago, contava episódios da trajetória de Apolônio – sempre lembrado por sua firmeza na militância, mas também pela gentileza – sucederam-se depoimentos em sua memória. Prestaram homenagens a professora Olga Werneck, a historiadora Marly Vianna, o filho e companheiro de ativismo René de Carvalho, o jornalista e escritor Álvaro Caldas, o dentista e ex-militante da ALN Carlos Fayal, a advogada de presos políticos Ana Muller, Bittar e Wadih. Ao final, foi exibido o documentário Vale a pena sonhar, de Stela Grisotti.