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Sylvio Capanema

24/04/1938 - 19/06/2020

Despertou para o Direito quando era boy de escritório. Co-criou a Lei do Inquilinato, foi desembargador, vice-presidente do TJ. Mas o título de dirigente do ‘Mengão’ e de vovô eram os favoritos

“Sou advogada criminal e por conta disso meu avô sempre brincava que eu era a criminosa dele e a desviada da família. Meu avô tem uma importância muito grande na minha vida. Não apenas na minha vida profissional, mas na minha vida pessoal. Tive a honra de conviver ao lado dele, de forma intensa, por 28 anos. 

Ele veio de Pilares, de uma família em que meu bisavô era médico. Aos 14 anos, ele foi boy no escritório de advocacia de um tio e se apaixonou pela profissão. Estudou no Colégio Militar, na Faculdade Nacional de Direito (UFRJ) e começou sua trajetória sozinho.

Quando falo sozinho é porque meu avô se transforma e se ‘retransforma’ ao longo desses 82 anos. Ele cria a sua própria história e tudo o que ele conquistou veio da força de vontade dele, exclusivamente.

Aos 25 anos, meu avô já tinha três filhas (Márcia, minha mãe, Flávia e Sylvia) e foi convidado a dar aula na Faculdade Cândido Mendes, como auxiliar, onde lecionou até os últimos dias de sua vida com muito amor.

Ele sempre me influenciou profissionalmente. Mas não apenas por ter sido desembargador ou um advogado reconhecido, mas por ter amado intensamente o Direito. Isso fez com que eu me encantasse pela advocacia.

O dom do meu avô era ensinar. Não apenas dentro das salas de aula, mas em cada sustentação oral, em cada julgamento, em cada acórdão proferido. 

Há um ano me formei na Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro, a Emerj, onde pude conviver com o meu avô por três anos, como aluna. Sempre assisti às palestras dele com a minha família, mas posso dizer que a experiência mais incrível que eu tive foi ter sido aluna dele.

Era gratificante chegar em sala de aula, ser recebida pelo meu avô, que sempre chegava dez minutos antes, colocava sua carteira na mesa, seu terno na cadeira e ficava observando, com os olhos brilhando, todos aqueles jovens com sede de aprender.

Nunca vou me esquecer, no primeiro dia de aula, meu avô entrando na minha sala e falando que a minha turma era muito especial porque era a turma da neta Luísa, que ele tanto amava e admirava.

E assim seguimos, juntos, nesses três anos da minha pós-graduação. Ao final, a minha turma o escolheu como professor homenageado e, em seu discurso, sempre engraçado, ele brincou “entre vocês, meus novos netos e a minha neta biológica Lu, não farei qualquer distinção. Apenas nos direitos hereditários”. 

Ele fazia questão de dizer que o maior orgulho dele era ser professor e assim ser chamado. Ele não dava aula, ele brincava com as palavras! Ser professor era um dom. Mas o maior título dele era ter sido presidente do conselho deliberativo do Flamengo, seu clube de coração.

Todas as vezes que o apresentavam em uma palestra e enfileiravam seus inúmeros títulos, ele brincava: “Preciso fazer apenas uma correção: faltou o meu maior título, sou ex-presidente do conselho deliberativo do Flamengo”. E, nessa hora, a plateia, que se assustava no início com a correção, caía na gargalhada.

A figura do meu avô na minha vida pessoal é muito forte. Ele era a sustentação emocional da nossa família. Fazia questão de reunir todos em volta de uma mesa, pelo menos uma vez por semana, e de fazermos nossas viagens.

Ele, como avô, deixa uma marca muito forte na minha vida! Um avô que sempre fez de tudo pela família e por mim! Nós éramos muito próximos. Quem me conhece sentia a nossa conexão e foi assim que vivemos por 28 anos! 

Meu avô viveu tudo o que tinha para viver. Comigo como neta, comigo como profissional, com a minha família e com o mundo! Ele sai no meio do espetáculo, com todos os holofotes virados para ele, e com a plateia de pé o saudando com aplausos eternos. Ele não encerra a vida dele, é eterno! Ele se perpetuará na vida de cada um.

Por onde a gente andar naquele Centro da cidade, no corredor do Fórum, em cada sala de aula, principalmente, terá a sementinha do meu avô. Meu avô é eterno na vida de cada pessoa que teve o privilégio de cruzar o caminho dele. 

Meu avô deixa o seu sorriso, a sua simplicidade, a sua generosidade. Afinal, não existe Sylvio Capanema sem aquele sorriso, como também não existe aquele sorriso sem Sylvio Capanema.

Meu avô estará presente em cada sessão de julgamento do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, em cada jogo do Mengão, em cada aula ministrada na Emerj. 

Meu avô estará presente na vida daquele jovem advogado de sede de Justiça, como também na vida de cada professor que leciona com amor.

Amor talvez seja o maior legado do meu avô! Meu avô foi e é muito amado. Não apenas pela minha família, mas por todos os seus amigos, alunos e eternos admiradores. Seguimos, por aqui, com seu sorriso e suas lições de afeto e sabedoria”. 

Texto da neta, a advogada criminalista Luísa Capanema Vieira

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