“Que esse 20 de novembro seja o primeiro de uma série no Tribunal”. A frase, carregada de esperança, é do escritor, cantor e compositor Nei Lopes, uma das personalidades atuantes no movimento negro convidadas para participar do Justa consciência. Pela primeira vez na história, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ) prepara uma programação especial para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra, nesta sexta-feira, dia 20. O evento terá mesa de debates, show, exposição e apresentação de capoeira e dança. A entrada é gratuita. Com 73 anos de idade e mais de 30 livros publicados, Nei vai protagonizar uma sessão de autógrafos do livro Poétnica, da editora Mórula, a partir das 15h30. O público também vai poder ter acesso a trechos de seus mais recentes livros ligados ao tema, como Rio Negro 50, que traz detalhes sobre a vida da comunidade negra carioca nos anos dourados, e Dicionário da História Social do Samba, escrito em parceria com Luiz Antônio Simas, mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Formado em 1966 pela Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, foi através da cultura que Nei Lopes encontrou a melhor forma de expressão. “Eu me afastei da advocacia porque não encontrei nela a possibilidade de realizar meus anseios de inclusão do meu povo. Sempre percebi que a Justiça é uma coisa de classe, assim como a sociedade. Você não tem a possibilidade de ascensão, ainda mais se você é pobre ou negro. Voltar ao tribunal com essa proposta de conduzir um debate, de autografar meus livros, de participar ativamente dessa discussão tão importante, é uma vitória”, comemora o escritor. O “Justa Consciência” é uma iniciativa do professor Joel Rufino dos Santos, da Diretoria-Geral de Comunicação e de Difusão do Conhecimento (DGCOM) do TJ, que faleceu em setembro. O músico e escritor lembrou com carinho do amigo historiador. “Esse evento também tem o significado de prestar uma homenagem, embora singela, ao meu grande amigo e irmão Joel Rufino. Ele fez muito no pouco tempo em que esteve no TJ. Que esse 20 de novembro seja o primeiro de uma série no tribunal”, diz Nei Lopes. O escritor deixa claro que a sociedade ainda precisa avançar muito na questão do preconceito racial. “As políticas sociais do governo estão causando grande descontentamento naqueles que se achavam privilegiados. O dia que o negro começar a incomodar, a conquistar posições na sociedade e a ocupar espaços importantes, aí a coisa vai recrudescer”, ressalta. Nei Lopes também vai mediar a mesa de debates Racismo, mal de raiz?, a partir das 14h, no Salão Nobre do Fórum Central. Os convidados para o debate são o sociólogo e teórico da comunicação, Muniz Sodré e a professora Jurema Agostinho da Cruz, graduada em Psicologia e mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ e pedagoga no projeto A Cor da Cultura. “Queremos deixar nosso conhecimento sobre a questão do negro. Nós três somos afrodescendentes e vivenciamos isso num duplo aspecto: de quem sente na pele e de quem pensa sobre o assunto”, destaca. O grupo Dá no Coro apresenta, às 16h30, Negro Cor, um espetáculo performático, entremeando música coral com textos poéticos e movimentação cênica teatral, sob direção do maestro Sérgio Sansão. Às 18h, Nei Lopes encerra o evento com o show “Samba, Direito e Identidade”, no Salão Histórico do Tribunal do Júri.