18/11/2015 - 11:43

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Memórias do racismo:"Não vou te pagar porque você é negra "

jornal O Dia

Vinte quilômetros separam Vaz Lobo da Barra da Tijuca. A empregada doméstica Fabiana Lameira cruzou uma distância bem maior que essa em 2013, ao ir de casa para o trabalho: conheceu o fundo do poço do racismo, e ainda chora ao lembrar da mulher que se recusou apagar por seus serviços. "É uma honra você trabalhar pra mim, sua negra. Eu sou branca e loira", disse, entre outros impropérios, a dona de casa. Fabiana procurou a Comissão de Igualdade Racial da OAB/RJ e o caso está tramitando na Justiça.
 
Foi a primeira vez na minha vida que eu vi o que é racismo. Tinha 30 anos, e é um baque, sabe? Uma vergonha que a gente sente, não da minha cor, mas da falta de lógica: o Brasil, do jeito que é, e a pessoa pensando assim ? Vi um anúncio dela, dizendo que precisava de faxina três vezes por semana. Saí de Vaz Lobo e fui para a cobertura, que era de frente para praia da Barra da Tijuca. Limpei tudo, ela averiguou, e disse que não ia me pagar, que eu deveria ter honra de limpar a casa dela porque eu era negra. Fui embora ela se negou até a dar o dinheiro da passagem.
 
Quando já estava na delegacia, ela começou a mandar muitas mensagens para o meu celular. "Na Barra só gente branca; "Macaca"; "Você não pariu, cagou". Mostrei tudo para o policial, e ele falou que ela deveria ter problemas. A delegada me tratou como se nada tivesse acontecido, sabe? Depois, a dona negou tudo. A OAB me ajudou. Minha filha estuda em um colégio particular e ficam apontando para o cabelo dela, que é bem enrolado. É muito triste ir comprar roupa e ninguém te atender. Quero justiça, espero que isso mude. Temos que nos respeitar.
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